História

"Não gosto do palco. As luzes confundem-me. Além disso o palco não é para nós. Os protagonistas são as pessoas para quem trabalhamos."

A infância e a juventude

Manuel Luís da Silva Violante nasceu em Lisboa, a 30 de Novembro de 1943. O avô, judeu alemão, veio para Portugal ainda nos tempos da monarquia, nos finais do século XIX, fugindo ao desconforto sentido por muitos judeus no consulado de Bismarck. O avô trocou o Von Inoch por Violante e instalou-se na capital portuguesa, numa casa em Arroios, mais precisamente na Rua Carlos José Barreiros.

A presença do pai era constante. Todas as manhãs fazia o desvio pela Rua Castilho para deixar os filhos na escola, seguindo depois para o escritório da Rua da Madalena. No regresso a casa ia buscá-los e falava frequentemente com os professores, sem pressas e tentando o detalhe. No caminho, a conversa sobre a escola, as aulas e a matéria dada não deixava espaço para silêncios.

O Manuel Luís era bom aluno e já se lhe adivinhava a facilidade para línguas. Em casa, além do alemão, tinham aulas de francês e conversação em inglês com a Miss Dasy. Aulas para levar muito a sério, pois os Pais obrigavam cada um dos filhos a falar uma língua estrangeira à mesa.

Aos 15 anos, pouco tempo passado sobre a morte do Pai, Manuel Luís decide que seguirá Engenharia. A conversa com a Mãe é fundamental para cimentar uma escolha em muito influenciada pelo prestígio de que gozava a Universidade Técnica e a admiração, frequentemente escutada em casa, pelas grandes obras e empreendedorismo dos engenheiros portugueses.

A cumplicidade entre o Manuel Luís e a Mãe acentua-se ainda mais após o desaparecimento do Pai, num misto de protecção e exigência que tornou aquela relação uma referência central do percurso de Manuel Violante.

Durante a vida de estudante

Quando se avizinha a época de exames, o Manuel Luís obriga-se a um regime draconiano. Levanta-se de manhã muito cedo, cinco ou seis horas, veste o roupão, começa de imediato a estudar e assim continua pelo dia fora. Ao final da tarde sai à rua para comprar tabaco e o jornal. Os cigarros são já uma companhia indispensável às longas horas de estudo, os cigarros e a cana com que sempre se passeia, de preferência pelo jardim da casa, enquanto revê a matéria. Por vezes, seja quando se sente devidamente preparado seja quando precisa de alguém que o ajude a recuperar rapidamente atrasos no estudo, selecciona um ou dois amigos e acerta o dia para uma «maratona pelas sebentas». Manuel Serzedelo e Adelino Amaro da Costa, companheiros de turma em engenharia electrotécnica, são os seus parceiros mais habituais nessas «sabatinas». Adelino Amaro da Costa, sempre com a matéria em dia, é frequentemente uma ajuda preciosa para os dois «Manéis».

Em 1969 Manuel Violante conclui o serviço militar, deixa o Técnico e ingressa no mercado de trabalho na Hidrotécnica Portuguesa, empresa especializada em Engenharia. Mas Manuel Violante não está satisfeito e continua empenhado em terminar Economia no ISCEF.

É na primeira fase dos anos 70 que Manuel Violante toma uma das decisões mais difíceis da sua vida e para a qual se aconselha junto dos amigos mais chegados e da Mãe: interromper ou não o seu percurso profissional para ingressar no Insead. Decide-se pelo Insead, o que representava um grande sacrifício financeiro.

É no Insead que começa a carreira internacional de Manuel Violante. A sua dedicação é tal ordem que impõe um horário à Mãe e aos irmãos, quando estes se deslocam propositadamente a França para o visitar. Classifica-se entre os melhores na conclusão do curso, sendo apontado por alguns como «o melhor».

O Ingresso na McKinsey

Manuel Violante acaba o Insead, em Fontainbleau, como o segundo melhor classificado. Foi sempre primeiro e só na recta final é ultrapassado por um italiano. Ficou-lhe a lição de que por melhor que sejamos, «ser inteligente dá muito trabalho». Entra nos escritórios da McKinsey, em Paris, em 1975, sob olhares de estranheza de muitos dos que lá trabalhavam. Parecia desajustado ao mundo da consultoria internacional, onde a aparência era cuidada com particular atenção.

Ainda em 1975, Manuel Violante é enviado para Turim, Itália, onde faz um estudo para a Fiat. O trabalho é desenvolvido com sucesso. O impacto dessa missão em Itália, respondendo ao escritório de Paris, é sentido não só a nível profissional, mas também pessoal. Violante recordará para sempre os amigos italianos e o enorme prazer desse período repartido entre Itália e Argélia. É um tempo que conta mais tarde com gosto, partilhando com amigos mais chegados as muitas «histórias à italiana».

No escritório de Madrid

Manuel Violante é chefe de projecto e «tremendamente notado pelo nível de exigência e pela expressividade com que defende os seus pontos de vista, com uma enorme capacidade para resolver os problemas».

A ligação de Manuel Violante a Portugal é muito forte. É genuíno quando exprime, vezes sem conta, a vontade de contribuir para o enriquecimento do País e diz acreditar nas potencialidades de uma economia onde «tudo estava por fazer». A Mãe, a quem telefonava mais do que uma vez por dia, é um elo essencial na vida do Manuel Luís e que o leva a manter sempre em aberto o cenário de um regresso profissional a Portugal.

Manuel Violante continua a aumentar a actividade em Portugal como consultor da McKinsey, nomeadamente no sector financeiro, em que se destacam os trabalhos para o BPA, com , e para o Banco Totta & Açores. Mas é em 1984/85 que a ligação Madrid Lisboa se torna mais intensa.

No escritório em Lisboa

A relação de trabalho de Manuel Violante com a McKinsey em Lisboa é muito diferente da que tinha em Madrid. Continua a trabalhar num gabinete sempre às escuras, com um candeeiro de secretária, seja dia ou noite, mas «em Lisboa é não só respeitado, como temido entre os consultores».

Roland Balsinde, consultor sediado em Madrid, vem pela primeira vez ao escritório de Lisboa em 1986 e fica surpreendido com o número de colaboradores, «é um escritório muito pequenino, com dez, quinze pessoas no máximo» e onde é evidente o peso de Manuel Violante, «muito consistente, muito claro, com pontos de vista muito fortes».

A McKinsey foi o centro da vida de Manuel Violante, daí a dificuldade com que iniciou o processo de saída da firma. A casa em Cascais que sempre idealizara para a família e para receber os amigos estava concluída. Manuel Violante dizia que finalmente iria entrar numa nova etapa da sua vida, com tempo para a filha e para os amigos. Uma nova etapa apenas sonhada e nunca concretizada. Manuel Violante morre a 2 de Janeiro de 2000, data em que a McKinsey Portugal se autonomiza de Madrid.

História manuel violante
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